Como agradar o divino
Encontrei um homem no acostamento da BR-226 que se deslocava da cidade do Natal, Rio Grande do Norte, para a cidade de Canindé, no Ceará. Ele empurrava um pequeno carro de madeira e zinco que media um metro de largura por um e meio de comprimento.
O carro, feito pelas suas próprias mãos, era o pagamento de uma promessa feita a São Francisco, pela cura de alguém da família. Empurrá-lo a pé por quase seiscentos quilômetros era parte da promessa. Ele disse que seriam mais de dez dias de viagem, parando poucas vezes para descansar.
Enquanto o observava seguir viagem, pensei que aquele carro carregava muito mais do que tábuas. Carregava esperança, gratidão, medo, amor e a antiga necessidade humana de acreditar que o céu escuta nossas lágrimas.
Desde sempre, bilhões de pessoas oferecem algo material em troca de uma graça espiritual. Uma vela, uma caminhada, um dízimo, uma construção, um objeto. É como se tentássemos traduzir em coisas aquilo que sentimos no coração.
Quem alcança a bênção agradece. Quem administra os templos também se alegra. Mas permanece uma pergunta que atravessa os séculos:
Será que Deus espera presentes... ou espera corações transformados?
Talvez a mais nítida demonstração de reconhecimento, de que algo divino nos tocou, seja empenharmos em ser pessoas mais amorosas, mais justas e mais humanas.
Porque, se Deus habita em algum lugar, é possível que sua maior alegria nunca tenha sido receber alguma coisa das nossas mãos.
Talvez sempre tenha sido ver nascer algo novo dentro do nosso coração.

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