Foi no início da primavera de 2022 que entrei em contato com uma teoria revolucionária que desde então começou a florescer silenciosamente dentro de mim: a Teoria da Tríade da Maldade.
Ela foi formulada pelo filósofo macaibense João Marques Lino, que a construiu ao longo de décadas de estudos e experiências, alicerçando-a também na convivência com milhares de adolescentes e adultos dentro de salas de aula.
Ao refletirmos sobre a felicidade, talvez precisemos começar por uma verdade que nem sempre queremos ouvir: não basta procurar a felicidade; é preciso também libertar-se, pouco a pouco, daquilo que nos impede de encontrá-la.
E é nesse ponto que surge a tríade: a gula, a ganância e os impulsos sexuais.
Não estou falando de necessidades naturais, mas daquilo que acontece quando elas deixam de ser necessidades e passam a nos dominar. Quando o desejo deixa de ser nosso e passa a ser o nosso senhor.
A felicidade exige uma espécie de libertação interior. Não uma libertação feita de uma única vez, mas uma caminhada silenciosa, lenta e vigilante, na qual aprendemos a desejar menos aquilo que nos escraviza e a valorizar mais aquilo que nos humaniza.
A ganância, talvez, seja a face mais visível dessa prisão.
Quando olhamos para a história da humanidade, encontramos repetidamente a mesma velha história: alguém querendo possuir mais do que precisa, mais poder, mais terras, mais riquezas, mais prestígio. E, para conseguir aquilo que deseja, ultrapassa limites, transforma o outro em obstáculo e, algumas vezes, em instrumento.
Quase todos os grandes conflitos humanos carregam, de alguma maneira, a marca da disputa pelo poder, pela riqueza ou pela posse. Queremos mais. E, muitas vezes, não percebemos quando o “mais” já se transformou em “demais”.
João Marques Lino, além de filósofo, é historiador. Compreende o quanto a ganância atravessa a história humana como uma sombra persistente.
Mas existe outra força capaz de desorganizar profundamente nossas vidas: o desejo sexual quando se transforma em compulsão e deixa de respeitar limites, vínculos e pessoas.
Desde as antigas narrativas mitológicas até os episódios que ocuparam as páginas dos jornais modernos, encontramos histórias de paixões, traições, ciúmes e disputas nas quais o desejo ultrapassou as fronteiras do respeito.
A história de Helena e Menelau, na tradição grega, atravessou séculos. Muito mais recentemente, casos como o de Bill Clinton e Monica Lewinsky ou os acontecimentos envolvendo Pedro Collor, sua esposa e o seu irmão Fernando Collor também passaram a fazer parte da memória política e social.
O problema, portanto, não está no desejo em si. O desejo é humano. O problema começa quando o ser humano deixa de conduzir o desejo e passa a ser conduzido por ele.
E há ainda a gula.
Talvez ela pareça menos perigosa porque, ao contrário da ganância e da compulsão sexual, muitas vezes acontece escondida diante de uma mesa.
Mas o corpo registra aquilo que a consciência tenta esquecer.
Comemos além da necessidade. Consumimos além do suficiente. Acumulamos dentro de nós aquilo que não precisamos, enquanto, em algum lugar, alguém talvez tenha menos do que necessita.
A gula não agride apenas o corpo. Ela pode também alimentar uma forma silenciosa de egoísmo: querer para nós aquilo que poderia ser suficiente para muitos.
Por isso, quando falo em felicidade, não estou falando apenas de conquistar alguma coisa. Estou falando também de aprender a abandonar.
Abandonar excessos.
Abandonar a necessidade de possuir sempre mais.
Abandonar a escravidão dos desejos.
Abandonar aquilo que, aparentemente, nos dá prazer, mas lentamente rouba nossa liberdade.
É por isso que digo que, para ser feliz, é necessária uma libertação gradativa, permanente e vigilante dos elementos que compõem a Tríade da Maldade.
Previamente, porque essa transformação interior precisa começar antes da busca desenfreada por aquilo que imaginamos que nos fará felizes.
Gradativa, porque ninguém se liberta de seus desejos e excessos de uma só vez. Somos feitos de hábitos, lembranças, necessidades e tentações.
Permanente, porque a liberdade conquistada hoje pode ser perdida amanhã. Não existe uma vitória definitiva sobre aquilo que continua nos seduzindo.
E vigilante, porque as tentações não desaparecem. Elas nos acompanham. Às vezes chegam vestidas de necessidade. Outras vezes, de prazer, de sucesso, de poder ou de felicidade.
Talvez a verdadeira felicidade comece justamente quando percebemos que não precisamos possuir tudo aquilo que desejamos para sermos felizes.
Talvez ser livre seja aprender, finalmente, a olhar para aquilo que nos seduz e dizer:
“Eu posso desejar. Mas não preciso ser escravo do meu desejo.”
E talvez seja nesse instante — quando começamos a possuir menos e a ser mais — que a felicidade começa, silenciosamente, a florescer.
Silva Lisboa

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