Depoimento de professor – Um jeito de ser feliz

 

Desde que comecei a dar aulas de Geografia descobri que ensinar ia muito além de explicar mapas, rios ou continentes. Antes de abrir o livro didático, eu procurava abrir os olhos dos alunos para o mundo que existia ao redor deles.

Por isso, todos os anos letivos começavam da mesma forma: reuníamos a turma para conversar sobre os principais desafios da comunidade onde vivíamos. Falávamos das ruas, da água, do lixo, da seca, da agricultura, do trabalho, da violência, dos sonhos e das esperanças. Era a partir dessas conversas que os conteúdos da Geografia surgiam naturalmente, dialogando com a vida de cada estudante. A escola deixava de ser um lugar distante da realidade para se tornar um espaço onde a realidade podia ser compreendida e transformada.

Quem conheceu o ensino fundamental nas pequenas cidades do interior do Nordeste brasileiro na passagem para este século sabe que aquela era uma realidade desafiadora. Muitos professores dos anos finais do Ensino Fundamental precisavam desempenhar duas missões ao mesmo tempo: alfabetizar parte significativa dos alunos e, paralelamente, ensinar os conteúdos específicos de suas disciplinas.

Diante desse cenário, compreendi que não bastava transmitir informações. Era preciso despertar a curiosidade.

Por isso, quase sempre iniciávamos um novo conteúdo caminhando pelas ruas, pelas estradas de terra, pelos açudes, pelas matas e pelos arredores da comunidade. A natureza, a paisagem e a própria vida eram nossos primeiros livros.

Ao retornarmos para a sala de aula, transformávamos aquelas descobertas em palavras. Escrevíamos coletivamente textos, relatos e pequenas pesquisas. Enquanto aprendiam Geografia, os alunos também aprendiam a ler, escrever, observar e pensar melhor.

E havia um momento que enchia nossos corações de alegria.

Transformávamos todo aquele aprendizado em pequenos livros coloridos, ilustrados com fotografias das aulas de campo e textos produzidos pelos próprios estudantes. Eu imprimia cada exemplar em casa e fazia questão de entregar um livro para cada aluno.

Era emocionante observar o brilho nos olhos de quem segurava, talvez pela primeira vez na vida, um livro do qual era autor.

Naquele instante eles compreendiam que também podiam produzir conhecimento, registrar sua história e deixar sua marca no mundo.

Sempre que possível, esses projetos envolviam outras disciplinas. Afinal, a vida não acontece dividida em matérias escolares. Ela acontece inteira.

Por que inserir essa história no livro? 

Porque é um relato de autêntica felicidade.

E porque ser professor nunca foi apenas uma profissão para mim.

Foi um chamado. Foi uma missão.

Foi a maneira que encontrei de fazer do mundo um lugar um pouco melhor.

É verdade que o magistério pode ser frustrante. Muitas vezes faltam recursos, infraestrutura, reconhecimento e condições dignas de trabalho. Existem dias difíceis, e não são poucos.

Mas, apesar de tudo isso, posso dizer com sinceridade que fui profundamente feliz.

Porque a felicidade de um professor raramente nasce do salário, dos cargos ou dos títulos.

Ela nasce quando percebemos que conseguimos acender uma luz dentro de alguém.

Como encontrei essa felicidade?

Talvez tudo tenha começado pelas expectativas.

Nunca esperei que todos os alunos aprendessem absolutamente todo o conteúdo previsto nos livros ou na proposta curricular.

A vida de muitos deles era atravessada por dificuldades que nenhum currículo consegue enxergar: pobreza, fome, violência, falta de apoio familiar, longas distâncias até a escola e inúmeras outras barreiras.

Em vez de alimentar uma expectativa impossível, procurei ensinar algo muito mais importante.

Mostrar que cada estudante podia tornar-se protagonista da própria aprendizagem.

Isso nunca significou transferir para o aluno a culpa por suas dificuldades.

Ao contrário.

Significava convencê-lo de que o conhecimento é uma conquista pessoal, construída dia após dia, muito além dos muros da escola.

Sempre procurei mostrar que a ciência não existe apenas para responder questões de provas.

Ela existe para responder às perguntas da vida.

Quando um aluno descobria que um conceito da Geografia ajudava a compreender sua plantação, sua rua, sua casa, seu bairro ou seu município, aquele conhecimento ganhava sentido.

E conhecimento que faz sentido dificilmente é esquecido.

Meu maior objetivo nunca foi formar alunos capazes de decorar conceitos.

Queria formar pessoas curiosas. Pessoas que soubessem procurar respostas. Que tivessem coragem de perguntar.

Que recorressem a um livro, conversassem com um professor, pesquisassem, discutissem e nunca deixassem de aprender.

Porque a verdadeira aprendizagem não começa nem termina na escola.

Ela acompanha o ser humano durante toda a vida.

Durante a pandemia essa convicção tornou-se ainda mais forte.

Como muitos alunos não tinham acesso à internet, eu ligava para eles.

Eu abria meu livro didático. Eles abriam o deles.

E começávamos uma conversa.

Muitas vezes os colegas se reuniam em duplas ou trios e colocavam o telefone no viva-voz. Em diversas casas, pais, mães, avós e irmãos também participavam das explicações.

Sem perceber, a sala de aula havia atravessado as paredes da escola e entrado nas casas das famílias.

A aula deixava de ser uma obrigação para se transformar em diálogo. E funcionou.

Funcionou muito melhor do que eu poderia imaginar.

Uma avaliação diferente

Sempre acreditei que aprender significa mudar.

Na vida é assim.

Quando realmente aprendemos alguma coisa, nossas atitudes também mudam.

Se nada muda em nós, talvez tenhamos apenas recebido uma informação.

Por isso, minhas avaliações nunca se limitavam à memorização.

Se um aluno esquecesse o nome de um fenômeno geográfico, mas passasse a tratar a natureza com respeito, cuidar da água, evitar o desperdício ou compreender melhor sua relação com o planeta, para mim ele havia aprendido o essencial.

Porque o compromisso com a vida não é um conteúdo escolar.

É uma escolha ética. É uma forma de existir.

Não se trata de formar ativistas ambientais.

Trata-se de formar seres humanos conscientes de que cada gesto deixa marcas no mundo.

Hoje, olhando para trás, entendo que alguns conteúdos ensinados talvez tenham sido esquecidos por muitos.

Mas espero que a curiosidade, o desejo de aprender, o respeito pelas pessoas e pelo planeta tenham permanecido.

Se isso aconteceu, minha missão foi cumprida.

Da mesma forma, se alguma ideia deste livro conseguir tocar seu coração e inspirar uma pequena mudança em sua maneira de viver, ele já terá alcançado seu verdadeiro propósito.

Mesmo que, daqui a alguns anos, você já não se lembre das palavras que leu.

Afinal, os melhores professores não são aqueles que enchem a memória de informações.

São aqueles que deixam sementes na alma.

E essa é a maior felicidade que um educador pode experimentar.

Silva Lisboa

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