O banquinho na Vila de São Romão

 

Há muitos banquinhos de madeira nas estreitas e sinuosas ruas na Vila de São Romão, aninhada entre as montanhas da Serra da Estrela.

À primeira vista, eles não chamam a atenção. A madeira acinzentada e desgastada pelo Sol, pela chuva e pela neve de janeiro não mostra mais o vigor de décadas atrás. Mas continua aconchegante e convidativo.

Estão ali, uns sob postes antigos, cujas luminárias convidam os leitores noturnos, e outros sob árvores parecem chamar em voz baixa os casais de namorados. Não possuem placas, nem monumentos, nem qualquer sinal de importância. Quem passa depressa talvez nem os veja.

Mas há lugares que não foram feitos para os olhos. Foram feitos para a alma.

Aquele banco ao lado do mercado tornou-se, para mim, muito mais do que um lugar para descansar o corpo. Era um porto. Um refúgio.

Um pedaço de silêncio onde o tempo parecia caminhar descalço.

Ali eu lia, escrevia. E deixava que os pensamentos, tão apressados durante o dia, finalmente encontrassem espaço para respirar.

Descobri que sonhar acordado não é perder tempo, é conversar com o futuro. Também aprendi que recordar não é viver preso ao passado. É agradecer o caminho que nos trouxe até aqui.

Naquele pequeno banco de madeira, viajei muitas vezes sem sair do lugar. Voltei à infância. Reencontrei pessoas que já haviam partido. Conversei, em silêncio, com meus medos e minhas esperanças.

Depois caminhei para a frente. Imaginei os livros que ainda escreveria. As mãos que um dia folheariam suas páginas. Os corações que talvez encontrassem nelas alguma companhia para suas próprias travessias. Um desses sonhos é justamente este livro que agora repousa entre as suas mãos.

Talvez ele tenha começado muito antes da primeira palavra. Talvez tenha nascido naquele banco, entre o vento, as árvores e a coragem de permanecer alguns minutos sem fazer absolutamente nada, além de escutar a vida. Vivemos num tempo em que quase tudo nos convida para fora de nós. As telas chamam. As notícias, as urgências, as opiniões dos outros chamam.

Mas raramente alguém nos convida a entrar. Entrar em nós mesmos. Ouvir o que o coração anda tentando dizer há tanto tempo. 

Toda pessoa deveria ter um lugar assim. Não importa se é um banco de praça, uma varanda, a sombra de uma árvore, uma cadeira antiga perto da janela ou um canto simples da própria casa. O lugar importa menos do que o encontro.

Porque esses pequenos santuários têm o poder de nos devolver a nós mesmos. São eles que nos permitem fazer a mais longa de todas as viagens. A viagem interior.

Nela caminhamos para trás, não para alimentar arrependimentos, mas para lembrar de onde viemos, das mãos que nos levantaram quando caímos, das pessoas que escreveram capítulos da nossa história antes mesmo de sabermos ler a vida.

E caminhamos para a frente, não para controlar o futuro, mas para escolhê-lo com serenidade. Quem nunca ouve a si mesmo corre o risco de passar a vida inteira seguindo caminhos escolhidos por outras pessoas. Mas quem cultiva um lugar de contemplação aprende a distinguir o barulho da voz. 

O barulho do mundo e a voz da própria consciência.

Se você ainda não encontrou o seu banco de madeira, procure-o. Talvez ele já exista, esperando silenciosamente por você. Talvez esteja mais perto do que imagina. Quando o encontrar, sente-se sem pressa.

Leve um livro. Ou nem leve nada. Escute o vento. Observe a luz mudando de cor ao cair da tarde.

Permita que o silêncio organize aquilo que o excesso de ruído espalhou dentro de você. Quem aprende a habitar esses instantes descobre que as maiores decisões da vida quase nunca nascem da pressa. Elas florescem no silêncio.

Foi no silêncio de um banco simples, sob um poste e perdido entre duas árvores, que compreendi uma verdade que desejo lhe confiar. A vida não muda apenas quando caminhamos. Ela muda, sobretudo, quando temos a coragem de parar.

Porque é nesse breve intervalo entre o passado e o futuro que descobrimos, finalmente, quem somos... e para onde o nosso coração deseja seguir.

Silva Lisboa

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